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terça-feira, 27 de março de 2012

Voluntariado, uma cultura em transformação

Este artigo inédito é destaque na Edição 27 - março de 2012 de Plurale em revista.

Na antiga Índia, o imperador budista Asoka (aproximadamente 274 - 232 a.C.) proporcionou instalações médicas, mandou que fossem cavados poços e, já preocupado com o meio ambiente numa época remota, plantou árvores para o deleite do povo.

Na antiga sociedade grega, viajantes recebiam tanto comida como abrigo nas casas dos ricos, ou então partilhavam a hospitalidade de camponeses.

Os profetas judeus foram os pioneiros das modernas organizações promotoras de campanhas. Trabalhavam incansavelmente pela justiça social, política e econômica e pressionaram seus governos a modificar as práticas políticas e administrativas.

Na época romana, o direito a milho grátis ou barato dependia da cidadania e era hereditária, passando de pai para filho (1), a sociedade era formada de três classes: os aristocratas, os cavaleiros e os plebeus. Os cidadãos notáveis, os bem nascidos, também devem alimentar sua cidade. Espera-se deles que gastem largas somas para manter o sentimento de contínua alegria e prestígio dos cidadãos. O fato de aliviar alguma aflição dos cidadãos pobres, era visto como acidental, pois o importante consistia em, de alguma forma, beneficiar o corpo cívico no conjunto (2).

O forte apelo da ideologia cristã de caridade nasce quando a igreja católica se firma como instituição, dando origem à doação como forma de penitência pelos pecados reforçando, no imaginário popular, o direito à purificação e salvação eterna.

Os ensinamentos judeus promoviam a ideia de que os pobres tinham direitos e que os ricos tinham deveres. As primeiras igrejas cristãs criaram fundos para apoio às viúvas, órfãos, enfermos, pobres, deficientes e prisioneiros. Esperava-se que os fiéis levassem donativos, voluntariamente, que eram colocados na mesa do Senhor, para que os necessitados pudessem recebê-los das mãos de Deus. Os primeiros legados foram autorizados pelo imperador Constantino I, no ano 231 d. C., possibilitando a doação de recursos para caridade. No mundo islâmico, a filantropia foi usada para montar grandes hospitais. Exemplos remotos de fundos de miséria também partiram do islamismo, quando pacientes indigentes recebiam cinco peças de ouro assim que recebessem alta (1).

2001 foi instituído pela ONU como o Ano Internacional do Voluntariado. Um marco para o Brasil na conscientização do tema e de ações promovido pelos próprios cidadãos, mídia e empresas. Na época o Ibope Inteligência aplicou pesquisa onde a participação do voluntário através da religião era de 44%, dez anos depois a mesma pesquisa adaptada para a modernidade, confirma que as instituições religiosas cresceram com destaque significativo, passou para 49% da população (3).

As transformações geradas pelo ato voluntário na sociedade moderna vêm contribuindo para uma quebra de paradigma entre o assistencialismo e profissionalismo, se por um lado temos o ato que é realizado por amor, compaixão e respeito ao próximo, logo são valores humanos impossíveis de tangibilizar; no outro lado da moeda temos o conceito de sustentabilidade que demonstra a necessidade de desenvolver indicadores que construam a eficácia deste trabalho não remunerado, e é ai que entra o profissionalismo na solução de causas sociais em parceria com o Estado, incapaz de resolvê-las sozinho e organizações privadas, que para a existência da marca, produtos e serviço oferecidos, obrigatoriamente terá que desenvolver a fidelização entre os diversos públicos que participam do lucro, incluindo aí o social.

Na visão do filosofo Max Weber , a sociedade capitalista nos oferece duas faces da alienação: o proletário aliena-se porque nesse ato produtivo que é o trabalho, ele é escravo do desejo de lucro que constitui a obsessão do capitalista (este reduz o operário a uma condição animalesca); o capitalista também está alienado (separado da sua humanidade): obcecado pelo desejo de lucro, de acumulação de riqueza, torna-se escravo desse desejo, não é um homem entre os homens, mas o lobo insaciável que devora e consome a vida dos outros (4).

O Estado e a organizações privadas vêm demandando atenção à expansão de organizações sociais, que treinam e capacitam constantemente seus voluntários, na busca por soluções dos problemas sociais gerados pelo capitalismo.

Esse fato é responsável por uma transformação cultural na forma de atuar das organizações sem fins lucrativos, exigindo-se delas que passem a agir de acordo com a lógica de mercado, demonstrando o uso do dinheiro público em resultados efetivos.

O primeiro relatório sobre o Estado do Voluntariado no Mundo (SWVR - State of the World's Volunteerism Report) ressalta a necessidade de compreender o perfil e papel do voluntário e incorporá-lo nas ações para o desenvolvimento humano. É universal e abrangente em termos numéricos, mas as ideias equivocadas e a falta de metodologias padronizadas de avaliação, são um obstáculo para sua abrangência e alcance. As potencialidades, reais dimensões de impacto e os valores reais do voluntariado precisam ser reconhecidos como um elemento essencial para o progresso das comunidades e nações (5).

Três grandes tendências estão mudando a face do voluntariado no início da globalização e da era digital: a migração e as viagens estão transformando o modo como as pessoas se voluntariam; o setor privado está cada vez mais envolvido no voluntariado e, as tecnologias da informação e comunicação estão fornecendo novos meios de participação voluntária.

A pesquisa do Ibope Inteligencia mostra que os voluntários são conectados. Do total, 87% dos voluntários têm celular, 64% têm computador, 62% usam a internet e 53% as redes sociais.

O voluntariado fornece uma direção importante para a saída da pobreza ao construir capital social, humano, natural, físico, financeiro e político. As ações voluntárias são formas fundamentais de superar a exclusão social, visto que essas ações podem aumentar o sentimento de valor próprio, bem como ajudar no desenvolvimento de vocações e outras habilidades. Os governos podem fazer melhor uso do voluntariado como uma ferramenta complementar para políticas sociais.
O Perfil do voluntariado brasileiro mostra que, 53% são mulheres e 47% homens, com uma média de idade de 39 anos. Dividem-se entre casados (47%) e solteiros (42%). Em relação à classe social, a maioria deles é da classe C (43%), seguida pela classe A (40%) e pelas classes DE (17%).

Segundo a pesquisa, a frequência do serviço voluntário é exercido, em média, há 5 anos. Os mais jovens, de 16 a 29 anos, exercem o voluntariado há menos tempo, 3,2 anos, e os de 30 a 49 anos há mais tempo, 5,4 anos.

Dos voluntários que atualmente exercem alguma atividade, 54% fazem com uma frequência definida e 46% fazem sem uma frequência definida. Em média, os voluntários dedicam 4,6 horas ao serviço voluntário.

O Bureau of Statistics of Australia (Departamento de Estatísticas da Austrália) concluiu que, em 2007, 5,2 milhões de pessoas foram voluntarias durante um total de 713 milhões de horas de trabalho, o equivalente a 14,6 bilhões de dólares australianos de trabalho remunerado.
Pesquisa baseada no trabalho doméstico conduzida pelo Bangladesh Bureau of Statistics (Departamento de Estatistica de Bangladesh) revelou que um total de 16,6 milhões de pessoas com mais de 15 anos se voluntariaram em 2010. A pesquisa estimou que a contribuição do voluntariado para a economia de Bangladesh foi de aproximadamente US$ 1,66 bilhão em 2010. As conclusões também demonstraram que o valor econômico do voluntariado no período 2009-2010 foi equivalente a 1,7% do PIB.
A Gallup World Poll (GWP) concluiu que 16% dos adultos em todo o mundo foram voluntários de organizações. O Comparative Nonprofit Sector Project da Universidade Johns Hopkins (CNP, na sigla em ingles) estima que, entre 1995 e 2000, o numero total de voluntarios que contribuíram por meio de organizações voluntárias em 36 países representaria o 9º país mais populoso do mundo.
O CNP calculou que a contribuição econômica dos voluntários em 36 países foi de US$ 400 bilhoes por ano. Isso representou, em média, 1,1% do PIB nesses paises. Nos países em desenvolvimento, o trabalho voluntário representou 0,7% do PIB. Nos desenvolvidos, o trabalho dos voluntários representou 2,7% do PIB.
O voluntariado é uma importante expressão de Responsabilidade Social Coorporativa com mais de 90% de empresas listadas na Fortune 500, com voluntários ocupando postos de emprego formal e programas de doações.
No Brasil, os anos 90 foram decisivos no processo de consolidação das ações voluntárias, representando também um grande avanço para as organizações do Terceiro Setor. No início dessa década vivenciamos a confluência de vários processos: a abertura da economia, privatização das empresas estatais, crise política e econômica, fortalecimento da sociedade civil, acompanhados de mudanças no mercado de trabalho, redução na capacidade de atuação do Estado e crescente envolvimento das empresas privadas em ações sociais.

A promoção do bem estar dos cidadãos e sua sociedade só se farão a partir da promoção de valores essenciais para uma vida mais justa e inclusiva para todos.

Referências

(1) HUDSON, Mike. Administrando Organizações do Terceiro Setor. São Paulo. Makron Books,1999.
(2) VEYNE, Paulo (organizador). Do Império Romano ao ano mil – História da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1990
(3) Pesquisa “Projeto Voluntariado Brasil - Ibope Inteligência 2011” fonte: http://www.slideshare.net/RedeBrasilVoluntario/voluntariado-no-brasil-ibope
(4) MAX,Weber (1818-1883). Filósofo alemão de origem judia defendia que a filosofia devia transformar o mundo e não simplesmente tentar compreendê-lo. http://filosofia.platanoeditora.pt/Site%20Inicial/Marx.html
(5) SWVR - State of the World's Volunteerism Report http://www.onu.org.br/pnud-e-vnu-lancam-relatorio-estado-do-voluntariado-no-mundo/
(6) PELIANO, Ana Maria T. Medeiros (coord.). Bondade ou interesse? Como e por que as empresas atuam na área social. Brasília: IPEA, 2001.

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